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4 de fev. de 2011

Assunto pra seguir carreira

Dando uma passeada nos blogs amigos, encontrei no de Rô Salgueiro uma questão que acredito não ser a primeira vez que abordamos, considerando este assunto como um martelo que custa a acertar o prego para a maioria de nós, principalmente para quem já bate suas asinhas solo.
Aconselho as meninas que ainda não se aventuraram em criações dançantes a lerem primeiramente o post que falo sobre o surgimento da própria dança, aqui.
Agora sim, entraremos de cabeça sobre esta segunda nóia que nos envolve com o decorrer do desenvolvimento artístico pessoal: para quem dançamos??? Como se guiar nas intenções e expressões?

Para aprender, dançamos para nós, exercitando o que nos ensinaram que é  bom e certo. Participamos de inúmeras coreografias, conseguindo (ou não) captar a intenção dela conforme o estilo da música.  Tudo varia da didática que a norteia até aquilo em que se acredita. Nos meus primeiros anos absorvi que só o baladi egípcio e o clássico eram os que traziam mais respeitabilidade, credibilidade profissional...talvez entre as bailarinas, o que na realidade são a minoria. Aprendemos sobre muita coisa que dizem ser feio ou errado, ainda bem que as idéias mudam ao abrirmos os horizontes.
É um exercício de paciência, sensibilidade e tolerância fazermos o que a princípio não gostamos ou desconfiamos, para depois descobrir a verdade sobre os mitos!

As bailarinas mais experientes conseguem, com o tempo, captar algumas diferenças relacionadas á sua intenção em cena, conforme o público a qual a dança se destina. Tudo pode variar conforme este público, o tipo de palco, a quantidade de pessoas, a música e a proximidade física da bailarina com este público. 
Vou colocar aqui alguns aspectos do meu aprendizado neste sentido, colhidos e selecionados ao sabor do tempo e através de muitos erros de percurso, rsrs!!!

Há músicas que são mais passíveis de interação e outras nas quais é até interessante manter uma idéia de distanciamento da platéia.  Por exemplo, existem músicas clássicas de pouquíssima variação rítmica, mais densas e tristes, letras poéticas, que clamam por uma interpretação mais introspectiva, mas não deixam de ser uma forma de interação, bastante forte, só que canalizada, de maneira indireta, através da percepção do sentimento da bailarina com a música. Desperta assim, no público, a reação de contemplação. A artista não precisará "chegar" no seu público, chamá-lo com muitos dentes à mostra ou caras de choro "acho que hoje vou morrer" ou o apelativo "veja como eu faço bem". (Hehehe, sim isto existe, faz parte da dramaturgia bellydance, rsrsrs...às vezes muito feio quando exagerado).

Tal música pede uma expressão de maior respeito e concentração, quase um transe, com uma certa dose de satisfação sorrindo em alguns momentos. Essa concentração é interessante quando o público está mais distante fisicamente, em grandes palcos, quando o público é misto ou com uma maior quantidade de bailarinos também. Normalmente, só profissionais sacam o grau de exigência neste estilo.
Desta forma, o primor coreográfico pode se sobressair à uma interação mais direta, sem deixar de de ser estimulante, visto que tal música exige um trabalho de leitura super elaborado.
Lição que a mestra Haqia comentou no work: que apesar de algumas músicas serem tristes, você estará ali dançando, e uma dança não deve ser triste o tempo todo, apesar da letra.

Exemplos de expressão bem definidos:

A entrega e o prazer de Suheir

Quem, eu?

Meu coração precisa do seu amor!

É pra você, sim!

Orit Maftsir: tem mais simpática?
Sim, a Nour é um show de interação!

Tem as músicas clássicas que se classificam como rotina oriental,  egyptian routine, megansia e cabaret style, que tem estruturas mais detalhadas em função da variedade rítmica e sinfônica. São aquelas que em sua maior parte tem uma grande duração, uma imensa e trabalhada estrutura sonora e quando chega na metade dela já estamos a suar frio, entrando em parafusos tentando acompanhar aquele ritmo doido que, por Jesus, não é maksoum nem malfouf, ó Senhor.

Essas são as mais difíceis no requisito "mudanças de humor". Pois além da contemplação ainda temos que tentar levar o público ao delírio, depois ao sonho, depois ao choro e por fim ao riso. Chupa esta manga, colega!
Brincadeiras à parte e com sinceridade vos falo, nem sempre dá. Mas sempre vale a tentativa.
Este tipo de música é querida em mostras, festivais e como variação especial em shows para públicos mais próximos fisicamente, mesmo que leigos, porém, se as músicas não forem muito longas. Esse é um aspecto importantíssimo: a música pode ser liiinda, mas passou o sétimo minuto, duas entre nove pessoas estarão atentas em você. Principalmente se estiverem a jantar. Tome cuidado. Goela a baixo, só foie gras.


Tem dois estilos que são megaqueridos do público em geral: shaabi (incluindo folclore) e derback. Profissionais já fazem nariz torcido para algumas músicas desse tipo, por se tratarem do populacho. Eu adoro, por favor dancem isto! E brinquem comigo, hehehe!

É que podemos considerar neste entremeio as músicas tradicionais, as pops mais moderninhas, saidi...tudo muito animado, recheado de charmes, ironias e brincadeiras. Quase sempre músicas cantadas com versos simples e repetidos.
Só que pra quem anda meio envergonhado, acaba sendo o estilo mais difícil!! Justamente por que a concentração muda, diminui um pouco e dá espaço à interação direta e pretensiosa, no bom sentido.
Neste estilo você precisa mostrar que é bom na conquista, na simpatia, que não tem vergonha de chamar pra dançar e que principalmente ama estar ali, dançando, pulando e brincando.
É possível desenvolver este aspecto expressivo coreograficamente, mas tem que se policiar pra não fechar a cara, tem que sentir a alegria da música com o querer transmití-la ao máximo.

Infelizmente, para exercitar esse estilo, comecei a julgar necessário a assiduidade da dança com um público bem mais próximo, o que ainda é muito difícil no nosso país, pois temos deficiência absurda em locais que oferecem oportunidade para que dancemos toda semana assim, pertinho, chamando o povo. Agradeço de coração ao Lubnnan, restaurante árabe aqui em Porto Alegre, por me dar a chance de trabalhar esse estilo. As meninas me orientam (me puxam a orelha mesmo) em relação as músicas  e como sou exaustivamente clássica, pedem sempre músicas bem animadas. No começo foi o ó, nem tinha tais músicas, mas depois comecei a sacar o funcionamento e hoje em dia tento elaborar um repertório mais shaabi, dando uma quebrada com uma egyptian routine e um derback.

Carinha de "vem dançar, negrinha!", mais shaabi impossível

Crianças dançando shaabi: fuzarca!

Alegria de um saidi!

Com isso percebi que o ambiente e o público sempre se sobrepõe ao que você preza como profissional. Na minha opinião, isto é uma regra. E enquanto você não começar a acreditar que está a serviço disso, vai pecar muitas vezes como eu. Por que eu achava que eu ia educar meu público a se tornar mais "erudito", só que na prática, isso é perfumaria. Pode acontecer, mas só com o mesmo pessoal, várias vezes e numa transição muito suave.
E não dá pra comparar com o que mostramos em sala de aula, onde explicamos o que para nós é realmente interessante artisticamente ou não, pois com o público, a única forma de comunicação e conquista é seu gesto e intenção.
Não que o clássico não cative, mas numa clássica, a percepção é a de que o público não é diretamente necessário, pois a arte está entre a música e a bailarina.
Com um shaabi, se não há público, a dança perde muito da sua finalidade expressiva, visto que é a interação que dá o tom, fazendo com que o público se sinta presente e necessário para o bailarino.

Entendem a diferença?

Concluindo: há momentos em que dançamos para as bailarinas, mas acho que nosso maior erro é quando sempre damos esse tom em todas as nossas danças.

Particularmente acho que devemos dar foco em dançar pro povão sempre, até por que a bailarina que nos assiste também precisa se sentir conquistada e ela sim, tem que aprender a curtir o lance sem ficar cuidando técnica de movimento o tempo todo, como se fosse jurada.

Minha maior reclamação como platéia não é da falta de técnica. Como brasileiras, somos muito estudiosas. O que me deixa doidona é ver que a bailarina tá nem aí pra me fazer sorrir, me encantar. 

Vejo bailarina talentosíssima, com um quadril  que Deus nos defenda, mas parece que estão com prisão de ventre, uma tranqueira só...imitam a Randa, só que sem força, sem atitude, sem balanço, sem básico egípcio...Ah, como eu sinto falta de quadris pesados, soltos e audaciosos no momento de maior explosão do ritmo! É isso que o povo gosta! Entusiasmo! Você não? Duvido, nega...

Eita quadril poderoso, essa Bozenka!
  Por favor, quero muito saber sua opinião, como bailarina, profe ou aprendiz e como platéia, quero saber se esclareci ou se confundi de vez, hehe!!!! Divulguem o assunto pra gente pesquisar as opiniões! Grande beijo!

1 de fev. de 2010

Hoje estou espartana - desabafo de uma bailarina balzaquiana

Oi! Estou superfeliz de estar começando a me comunicar mais e com mentes pensantes da dança no Brasil. Aqui no sul já tenho um grupo de amigas de altíssimo nível, daqueles assim, que se a gente senta pra falar tem que ter tempo, muito tempo! Uma das coisas mais legais que já aconteceram este ano foi conhecer Viviane Amaral, para desespero dos maridos ansiosos em ver suas esposas em casa em horário digno, hehe! Digo isto por que não há meios de chegar em casa cedo quando juntamos na mesma roda: Fernanda Zahira Razi, Samara Leonel, eu e agora Vivi, cheia de conversa nova e "bôua", nos lugares mais apetitosos da Portinho. Falando nisso, Sami, meu corpo precisa daquele sorvete de torta de maçã denovo. Ahhhh, Cronk's! E vamos levar Vivi para tomar O suco de abacate com laranja da Lancheria do parque!
Voltando ao artigo proposto, tenho lido o blog Andanças de Lory, muito legal e traz boas polêmicas! Um dos últimos posts fala sobre bailarina e público, ela citou um esquema que rola com o pessoal do teatro: de educar a platéia. Para não rolar mais frieza, histeria, palma na hora errada, gente levantando da cadeira no meio do show...entre outras atrocidades que acontecem com qualquer artista de palco. Povo brasileiro! Só respeita a novela das oito, né? Só vai no banheiro na hora do intervalo e olha lá!
Então, já houveram algumas respostas alternativas, entre elas a minha, de Vivi, de Lucy (outra cabeça mui pensante!), etc. Enquanto essa tal educação não acontece de fato, convido-as a reavaliar nossos papéis nesse trem.
Primeiro: se o povo é mal educado, loucas somos nós que tentamos apresentar uma arte estrangeira e sensível para um povo que só ouve em sua maioria, música de baixíssima qualidade (não quero citar para não ferir possíveis almas delicadas).
Segundo: loucas somos nós, que tentamos fazer com que as pessoas batam palmas para um tipo de interpretação e cultura musical que nada mais nada menos influenciou Mozart. Por acaso quem ouve o funk já ouviu falar em allegro? Valha-me Deus.
Terceiro: loucas somos nós, mas persistentes o bastante para lutarmos com nossas pequenas armas (dança, conhecimento e um toque de rebeldia) contra a massificação da ignorância, em sua continuidade. Pois com o pouco que sabemos dá pra ser bem mais feliz.
Quarto: como cabeças pensantes temos que dar bons exemplos. Eu ainda me considero um pouco infeliz nesse aspecto, pois sou um pouco encrenqueira, mas não desistirei e um dia vou alcançar o nível da Fê. A Fê é minha colega do Masala. Ela é imparcial em seu equilíbrio emocional. É uma lady. Daiane, aprenda logo por favor! É bem aquele lance do fale menos e faça melhor.
Os bons exemplos aos quais me refiro e que contribuem para educação de platéia é em relação aos shows, sua divulgação, seu papel, sua justificativa e abordagem. Ok, por partes:
Algumas pessoas quando realizam shows estão tão preocupadas em pagar o trivial, que banalizam o próprio trabalho e o das outras. Não dão devida atenção para layouts de bom gosto, acham que o que importa é o contexto. Que contexto? Aquele que inventaram pra poder dançar? Aquela intenção velada, disfarçada de grande coisa que acabam por relacionar com a dança do ventre? Isso é enfadonho e triste pra mim. Tem gente que pergunta: ai, Dai, porque não produz um show? Minha resposta é: o dia que eu tiver kooh para pagar decentemente O ELENCO e todo o resto, eu farei, do contrário, não preciso de palco nem de investimento de outrens para aparecer de qualquer jeito. Fora isso, gente, não é show profissional. É informal. Não façam os amigos e parentes de vocês pagarem por isso. Se o show é feito com amor, é simples, tem uma intenção verdadeira, compartilhe. Mas não faça público e bailarina pagar pra estar ali. Quem produz tem que meter isso na cabeça. Os shows de dança do ventre nunca serão bem vistos enquanto esta palhaçada não acabar. E parem de linkar dança do ventre com um monte de aspectos lúdicos, isso já era. Isso é pra vender. Se é verdade mesmo, quem fizer dança ou quem assistir o show vai sentir e determinar a veracidade daquilo que viu. Por mais terapêutica que a dança seja! Todas as formas de atividade física saudável são terapêuticas, hidroginástica é terapeutica, massagem é terapêutica. Como é que o flamenco nunca se vendeu como terapia? Uma coisa é certa, a dança vai ser e sempre será uma forma de curtição, de autoconhecimento, de bem estar e qualidade de vida, direcionada para a mulher mais do que as outras danças, mas isso não justifica qualquer apelação neste sentido. O consultório ainda é uma ótima solução para resolver frustrações.
Eu já fiz tanta meleca, já embarquei em tanta canoa furada, que me dou direito de falar destas coisas, pois eu sei quando as intenções são reais. O trabalho da Karina é um caso à parte, não tem nem comparação. Meu trabalho forte surgiu com ela, fundamentou toda minha base. Mas o que surgiu de "coisas" se utilizando deste meio sem sequer compreender o propósito de tudo, nos faz ter o triplo do cuidado ao relacionarmos dança com misticismo e feminino. E chega de quatro elementos! Valha-me Deus 2!
Por último, meninas, se vocês concordarem eu acho superimportante começarmos a mostrar que bailarina tem língua. Pra falar! Vamos nos intrometer mais em palestras, agarrar os microfones e informar sobre aquilo que o povo vai ver. Também é um meio ativo, direto e eficiente de educar a platéia. Quando realizarem shows, dêem atenção para tudo, verifiquem a qualidade do que estão realizando. Imprimam um roteiro com as danças e as devidas explicações e "regras" do show pra distribuir na entrada, comuniquem-se com o público de vocês, valorizem a presença dele, não esperem que a dança faça tudo isso por vocês, pois não é assim que funciona neste país, vamos tentar compreender a razão que os faz assistir nosso show. Eu e as meninas do grupo estamos sempre discutindo isto, por que as pessoas iriam nos ver, como fazer para que eles queiram isso em vez de ficar em casa vendo a novela? Questionem-se em favor da própria qualidade e em respeito a eles. O retorno é indiscutível.
Bom, eu dou a outra face se alguém ainda quiser bater, agora é com vocês, eu já desabafei. Abraços a todas!!!