28 de nov de 2012

Dança e psiquê


Ainda no contexto da dança, fui buscar em algumas fontes relacionadas a este universo algumas referências importantes que podem vir a fundamentar ou justificar linhas de raciocínio que compartilho quando o assunto é dança. Essas colocações e pesquisas que faço acrescentam muito no trabalho com a dança, no meu ponto de vista, no qual me coloco como responsável artisticamente, atuando como agente transformadora tanto de forma presencial como numa mídia formadora de opinião.
Tenho recebido vários feedbacks sobre aquilo que escrevo e não só de pessoas próximas ou “suspeitas” por serem colegas ou alunas, mas também anônimas, (inclusive nem sempre se tratando de críticas positivas) mas que me ajudaram a pensar melhor sobre a maneira de se dirigir a um público incerto. O mais legal desta história é descobrir posteriormente que aquilo que foi escrito despertou em alguém o objetivo que inicialmente havia intencionado e que foi muito além do que se imagina, pessoas antes desconhecidas pessoalmente se sentiram tocadas  e que depois de conhecê-las trouxeram com elas algumas passagens dos textos aqui escritos.
Dada esta importância me vejo a insistir, com maior atenção, em escrever sobre os insights que tenho e revelar o que consigo, de forma o mais clara possível, conteúdos interessantes sobre as pesquisas que faço inicialmente por mim mesma, mas que quando começo a identificar ligações com aquilo que pode abrir nossas mentes, julgo necessário compartilhar. E o fruto depois se revela.
Esta semana fiquei muito contente em ver num blog de dança tribal um artigo bastante completo sobre Ruth St Denis, e uma das coisas que quero voltar lá pra ler com atenção é o sobre seu método, pioneiro na adaptação da espiritualidade como ferramenta para uma melhor atuação artística. Ela acreditava que se o bailarino fosse um ser mais espiritualizado a sua dança teria mais qualidade. Nada mal!O blog é o http://tribalmind.blogspot.com.br/2012/11/great-women-in-history-ruth-st-denis.html.



Também estou lendo uma publicação maravilhosa sobre Pina Baush e uma análise comparativa da sua abordagem com a psicanálise de Freud. Ainda não terminei, mas o que pude conhecer sobre o pensamento Baushiano aplicado em sua didática revolucionária tem me trazido vários desses “insights”.  Uma das coisas que me identifiquei foi com a descoberta de como ela lidava com a coreografia (apesar de ser dança moderna, pós ballet clássico) de maneira totalmente diferente do convencional. Acredito que assim como numa terapia, ela buscava alcançar algumas fragilidades, sentimentos enraizados em seus bailarinos através da conversa ou da simples divagação, conhecendo profundamente cada um deles e buscando ao máximo trazer à tona tudo aquilo que julgasse necessário para que houvesse uma transformação da técnica para a expressão livre.
*“...Para Bausch, a consciência corporal aproxima-se mais de uma
inconsciência corporal, no sentido de visitar espaços onde o afeto se deu
e reviver os sentimentos gerados. Ou seja, elaborar ressignificações. Os
caminhos da coreógrafa são sempre pontilhados, abertos, com várias
possibilidades de entrada e saída. Nesse processo, os paradoxos, erros,
incertezas, experimentações não são sinais de fraqueza, mas sim de que
a vida está presente.”

Também utilizava técnicas de repetição, mas não para aperfeiçoamento coreográfico no sentido técnico e sim expressivo (o que eu achei o máximo): a repetição ligada ao erro. Pura e simplesmente, ela captava os momentos de maior “desestabilidade” e usava isso a favor da dança, adaptando o “erro” à identidade do bailarino. Coisas assim fazem a gente pensar: “como não descobri isso antes?” e nos mostram o porque certas pessoas tem a genialidade tão reconhecida.
A seguir, com meus estudos “contemporâneos” quem sabe poderei adaptar esse método para nossa realidade atual. Terminando de ler a publicação, serão mais descobertas interessantes, pois chegarei na conclusão que vai explicar toda a simbiose da didática de Pina com a psicanálise. Ui, anda logo, titia!!! Até loguinho...

* A dança da mente, Maria Tereza Furtado Travi. EdiPUC, RS

25 de nov de 2012

Silêncio e impacto: ferramentas básicas

Normalmente eu reservo este tipo de assunto mais específico ao conteúdo das aulas, mas como ele não é tão facilmente metabolizado, vale a pena uma reflexão prévia que contribuirá efetivamente para a melhor compreensão do seu uso, que é na minha opinião, um requisito fundamental para uma boa dança: a atitude, que se revela na excelente utilização do silêncio do movimento e da aceleração/desaceleração do mesmo.
O excesso contínuo de força, impacto ou suavidade sem variação freqüente são responsáveis por aquela sensação de estar faltando um tempero, isso quando não fica maçante.
É erradíssimo pensar que, ao desenvolver o aspecto da força ou da velocidade continuamente em escala progressiva, isso se torna proporcional à qualidade da dança. Uma dança excessivamente firme sem tranquilidade e sinuosidade suficientes, massiva em impacto, desanima tanto quanto a mais delicada.
A melhor forma de exercer o equilíbrio neste caso é usar o bom senso e pedir a opinião das pessoas. Se você não puder fazer uma análise da sua dança em uma aula presencial, tente recomendações de vídeos que tragam estes elementos importantes para que possa vê-los na íntegra. São muitos exemplos em vários estilos de dança.
Se você algum dia já notou que, ao sair do palco a resposta do público não foi a esperada, tenha duas formas de compreeder a situação: ou você teve um público muito desanimado meeesmo ou...provavelmente, você não captou atenção. Fez tudo direitinho? Pois é, fia, talvez o problema seja este...


A leitura musical é impecável, tudo no ritmo, postura correta, coreografia pronta. Mas será que tem realmente, algum momento especial entre esses passos pra surpreender o pessoal? Será que você não está escondendo o jogo demais com medo de ousar? Nunca deu vontade de parar tudo e gritar pra acordarem e começar a bater palma?
Ou você está muito agressiva, ou rápida ou desconcertada e sua dança virou um soco, ou a movimentação está muito caída, lenta, superficial, fraca.

                                                               Olha a impressão que dá.


E olha como o povo fica.


Então cara amiga. Pegue toda essa vontade e mate a pau logo. Faça alguma coisa que os deixe curiosos ou abismados. Claro que não precisa baixar as calças. Apenas crie momentos mais interessantes, que prendam a atenção e façam querer ver sua dança até o final, com motivação. As pessoas querem lhe conhecer, mas você precisa ter a iniciativa pra isso, pois é a artista que se propõe a entreter.
A criação destes momentos tem dois elementos essenciais que chamo de silêncio de movimento (paralisação) e sua retomada através de um movimento intenso-lento, ou intenso-impactante ou acelerado.

                                      É como uma gota lá do alto, sobre a água parada. De repente...

                 
                                        E alguém na multidão abre os olhos e pensa: "Opa!?...."

Nem tudo na música precisa ser seguido à risca ou ainda, você pode escolher momentos em que o ritmo pode ser desdobrado. Além de poder seguir só aquele instrumento ou batida menos sobressalente. Infelizmente uma melhor compreensão disso tudo precisa ser presencial, é necessário estudar seqüências bem especificas para obter claros exemplos desta utilização. Mesmo assim espero que valha a dica para utilizar melhor esta ferramenta. Você poderá inclusive usá-la em algo já construído, acrescentando na sua matemática coreográfica alguns momentos de destaque, sem mudar nada. E não necessariamente em tribal (o tribal utiliza essa técnica com maestria, pois tem intrínseca em seu conceito, assim como a limpeza do movimento). Na dança do ventre normal ela é ainda mais necessária e precisa ser uma idéia mais amadurecida através do estudo dos ritmos na música árabe clássica, em especial no wahda tawil. No shaabi, esses momentos são ainda mais essenciais, pois é o que vai dar gosto de ver, o que vai caracterizar toda a malícia, a alegria  e o charme do estilo.
Queridas, queria dar mais umas pinceladas, mas voltarei com mais conteúdos bacanas, me aguardem. E por favor, entrem em contato se precisarem de algum toque. Beijão!!!



18 de nov de 2012

Danças e periferias



Mais maravilhoso que discutir um assunto de dança, tanto quanto praticá-la, é quando se cruzam as idéias e os propósito em universos paralelos. Periferia, eu chamo este texto, pela universalidade do termo, "tudo que está em redor". E tudo que possamos imaginar pode acontecer ao redor da dança do ventre, ao redor da dança contemporânea, ambas danças libertadoras, porém com pontos de vista que se perdem num caminho sem fim. Duas mulheres complexas. Uma visionária, outra apegada às suas raízes, atrás de excelência, disciplina e liberdade, de maneira complementar. Uma quer algo que a outra tem e as duas tem problemas parecidos.

A dança contemporânea partiu da revolta com a dança moderna (esta que se revoltou com o ballet clássico por sua disciplina rígida, desconfortável, excessivamente técnica, mas que no fim acabou adotando também). Dança livre, tem nessa principal característica a sua beleza e seu drama. Seu viés é aquilo que lhe determina: o excesso de liberdade e a ausência de regras que viabiliza o excesso, tendo como "autêntica" dança contemporânea aquilo que chamaríamos de uma encenação qualquer, menos dança em si. Há contradições acerca do que se determina dança contemporânea, a sua expressão como "não atitude" incomoda os mais ortodoxos, e seus excessos e ousadias acabam descaracterizando o que poderia ser mais belo e menos excêntrico. A falta de limites certamente é um problema na educação. E na dança também, pois a liberdade e a arte não se limitam ao belo e ao correto, nem devem . Só falta uma coisinha, chamada bom senso.



A dança do ventre nutre suas raízes egípcias e busca autenticidade fora de seu espaço natal. É a feminilidade em dança e ilustra em suas bailarinas questões sociológicas, políticas e culturais, seus anseios, ternuras e medos, porém tudo muito dissimulado. Ela se universalizou, tornando-se uma mulher decidida e capitalista, de véus agressivos e sem calcinhas. Ela é fraterna e acolhedora: exige pouco espaço, pouca energia, aceita brilhos e agrados (mas nem sempre quem vê aceita apenas isso). Seu maior conflito é uma fuga da dissimulação (excesso de cópias e rigidez emocional durante a interpretação)  resultante da falta de identidade, experiência e interatividade contínua. Há oportunismos imensos envolvidos na questão de performances e shows que se traduzem em baixa estima, impulsividade e desvalorização.

Quem também surgiu de um desconforto com o modelo convencional da dança do ventre foi a dança tribal. Adotou em seus movimentos mais androginia, mais contradições, agregou mais elementos de outras danças, tornando-a um pouco mais liberta, sem perder a disciplina. Como toda dança que nasce de uma revolta, ela tem sede, tem fome, cresce rápido. É uma mulher moderna , mas que se foca no seu interior e nas possibilidades. Nela ainda tenho mais esperança de encontrar mudanças que a valorizem e mantenham em constante transformação.
Na busca de alimentar essa característica busco a dança contemporânea.


O que será fusionado? Elementos com novas leituras e possibilidades, um corpo mais livre, mais fiel à uma temática e longe de qualquer ditadura (desde que haja uma determinada qualidade de movimento).
Imagine você poder criar uma história no cenário da dança oriental, mas com características que a torne melhor fundamentada e interpretada, com uma corporalidade mais disciplinada: uma perna mais alta sem que sua finalidade seja apenas estética externa, um movimento de chão que não seja apenas para mostrar habilidades abdominais... Possibilidades de trabalhar repertórios menos batidos e subjetivos, ou ainda, transformar os famosíssimos "quatro elementos" em algo muito mais aproveitável do que a simples caracterização...sem querer desprezar nossas raízes , mas falta conteúdo nesse propósito, não concorda?...
Enfim, uma mente aberta agrega valores àquilo que já os possui de forma tradicional e não descaracteriza sem uma boa convicção. A intenção é de enriquecimento. Um artista satisfeito ainda não é um bom artista, este nunca se completa, pois está em constante inquietude!


Este próximo ano, 2013, certamente vai nos exigir uma maturidade absurda em termos de humanização, e isto será muito bom para classe artística alçar vôos maiores. É o momento de parar de pensar de forma individualista e compreender de vez o por quê a coisa não vai pra frente. Para nós da dança, vale a pena trocar de lugar com a platéia e exigir-se mais em conteúdo e objetividade.


Os professores terão necessidade de ser menos coniventes com seus alunos "investidores", abrindo seus olhos para descobrir de fato suas reais habilidades e limitações, ultrapassando um pouco seu senso crítico convencional, mesmo que isso signifique tocar em algumas feridas. A sinceridade e o desprendimento do professor é que faz o aluno evoluir. Isso é uma escolha do aluno, acatar as críticas construtivas para seu crescimento ou magoar-se, fechar-se em si com suas justificativas e seu orgulho para então abandonar o barco. O que não devemos esquecer é que o professor é quem tem o dever de viabilizar esses "conflitos" com o ego do aluno e não ajudar a alimentá-lo ao preço de uma mensalidade, por medo de perdê-lo.
Passada esta fase de confrontos psicológicos, o retorno para ambos tem um valor infindável, a confiança e o vínculo se fortalecem. Este professor vai te dar caminhos para alcançar sua própria verdade. Porque:

..."Há apenas um de você em todos os tempos, essa expressão é única. E se você se bloquear, nunca vai existir em qualquer outro meio e será perdido."
Martha Graham