6 de fev de 2011

Agora, sobre a face...emoção, construção ou caricatura?

Bah, que legal ver que o pessoal curtiu o assunto anterior! Agradeço muitíssimo pelas respostas e fiquei muito feliz de saber que consegui trazer algum esclarecimento, pois realmente esse é um assunto que me trazia muita dúvida, ouço muito sobre ele e apesar de abordar bastante estes elementos em aula, acabo esquecendo de colocar no blog, tanto detalhe pra gente cuidar, né? Mas vamos lá, se tá ficando gostoso, então, vou lançar mais um assunto que com certeza as nossas rakaças já questionaram: a expressão facial.

Aqui, não só como bailarina profissional mas principalmente como aluna e expectadora, quero partilhar minha opinião, histórias e minhas dúvidas com vocês.
Quando comecei a dançar e presenciar shows com uma diversidade maior de bailarinas, acabava comparando-as e também me surpreendendo com o fator expressão, muito mais que com a técnica, a menos que a diferença nesse quesito fosse gritante.
Como aspirante ao palco e como platéia, percebi que haviam coisas que me desagradavam demais na dança que tanto havia me cativado.
Uma delas era a expressão de algumas moças no palco. Havia dois tipos que particularmente me deixavam nervosa: a cara de quem vai se debulhar em lágrimas a qualquer momento (dor ou tristeza) e a cara de nada (blasé indiferente/tensa ao extremo).

Na minha ignorância inicial tentei sacar qual era a moral. Não saquei. Mas tudo bem, a vida continuou e com o tempo fui percebendo cada vez mais que isso era uma ferramenta de dramaticidade por causa da música, na tentativa de ser fiel à melodia/letra ao máximo ou no segundo caso, de concentrar-se para não errar o passo na coreografia.

Quando comecei a dançar em cena, nunca consegui ficar muito blasé, mas tinha um sorriso nervoso, contraído, meio forçado. Isso também era feio, mas com as filmagens e conversas entre colegas, a gente foi se exercitando para relaxar mais. Ficava também com a cabeça baixa. Nossa, esta foi mais difícil de consertar!
Consegui graças a uma colega muito querida que foi bem sincera, chegou no ponto certo e na hora certa, antes de uma apresentação importante. Era a Niriane, e ela disse assim (olha como nunca esqueci): "Dai, tu tem um movimento lindo, tua dança é uma das que mais gosto de ver, do que tu tem medo? Não precisa ter vergonha de nada, relaxa!"
Eu tinha vergonha por que sempre fui gordinha e me justifiquei assim. Aí a Karina (profe) me disse: "Tu não gosta da Suheir Zaki, por exemplo? Então, ela também teu o teu biotipo, e percebe como o pescoço dela está sempre à mostra! O queixo lá no alto, hiperclassuda!"
Então rapidamente concordei e a partir disso tudo começou a melhorar.

Quando veio a febre da Dina, muita gente aderiu à expressão dela, o que na verdade trouxe bastante caricatura para nossa dança. No caso dela, é muito natural, ela ri e conversa com a mesma expressão, ela É aquilo ali. Qualquer imitação descarada, ficava o ó.
Simplesmente, acho que tem coisas que são tão naturais e pessoais em termos de expressão facial, que se a gente tenta imitar sem sentir a verdade do momento ou a personalidade real daquela expressão nas entranhas, a coisa complica.

Dina: e essa tá bem suave!
Mesmo natural pra ela, à primeira impressão da Dina pra mim também era estranha, depois a gente acostumava (estudando ela) e via que aquilo não era tão forçado quanto parecia. E nos shows por aqui, sempre tinha gente na platéia que não entendia nada quando as bailarinas faziam cara de dor. Ficavam meio embasbacados, assim como eu no começo.
Hoje em dia ainda me vejo em platéias, reagindo mal, mesmo sem querer, a estes exageros expressivos (ou total falta de). Ao mesmo tempo, quando danço, ainda me vejo várias vezes perdendo o controle em algumas cenas de show, mas saindo melhor pela tangente, dando aquela viradinha de costas , aquele giro discreto, rsrsrsrs....é um exercício pra vida toda de uma bailarina!

Mas o que preciso contar é sobre o dia em que fui ver dança flamenca. Claro que não vou dizer quando, nem onde nem quem, fui a vários shows, mas um deles me decepcionou tanto nesse aspecto de expressão, que mesmo amando o flamenco, me distanciou da vontade de fazer aulas. Os movimentos, a música, a roupa, tudo impecável. Mas...por que, ó Senhor, aquela cara??? Uma mistura de cachorro brabo com dor sem poder gritar! Sei que esta dramaticidade está inerente a toda a história e musicalidade famenca.
Mas as meninas tinham um rosto tão lindo, ficavam irreconhecíveis, na maior parte do tempo. Senti a mesma sensação das primeiras cenas de dança.

 Acho que isso é grave, mesmo que fazendo parte. Acho que dá pra fazer milhares de expressões numa única dança, mas as piores a gente tenta deixar pra quando a emoção coincidir de verdade com tal fisionomia. E por favor, estou falando como leiga, não como quem já dança.
 Uma expressão sempre pode ser construída se necessário, inspirada, copiada, mas com o velho bom senso do questionamento sobre o que se quer que a platéia perceba. Quero mostrar a mim ou a meu ídolo que faz caretas absurdas? Isso também faz parte daquele item: "danço pra quem?". Se para o público, o que ele sentirá vendo esta carinha?

Em compensação a esta vez, vi uma mulher, também do flamenco, e um rapaz, ambos noutra ocasião, que me entusiasmaram muito. Havia uma expressão de dor ou agresividade, muito sutis e variadas ao sabor da música, como se eles me fizessem almejar sempre por um momento ainda mais expressivo, audacioso. Bingo! Aí sim!!! No decorrer da dança, no auge da canseira e na energia da música, estavam totalmente entregues e imersos na sensação real da dança, não desde o início, como na citação anterior. Uma delícia, o bailarino descascando devagarinho seu sentimento mais profundo...entregando os pontos, com seu suor, num crescente até o êxtase!

O êxtase em Maria Pajes
Então vou indo, deixando aqui meus relatos, para que reflitam comigo nesses aspectos e aproveitemos como apoio pra gente treinar o envolvimento e o controle inicial que podemos ter na nossa dança, de modo a alcançar o pico certo da expressão facial mais forte. E pensem no sorriso também, quem nunca ficou com a mandíbula travada ou a musculatura facial presa num sorriso teimoso? Talvez esse sorriso também possa vir de mansinho e gostoso, não? Hehehehe...

Paralisadão, só pra você!!!

4 comentários:

Lucinara disse...

Nossa, Dai! Um post melhor do que o outro, assim, na sequência! :-D
Gosto de dançar músicas que me toquem profundamente, que me emocionem, que me alegrem ou entristeçam, senão não consigo passar algo para o público através da minha expressão.
E a minha maior dificuldade é deixar o sorriso largo de lado, e utilizar uma expressão mais introspectiva ou mais "festeira".
Ando nessa busca: variar a expressão. E o teu post veio na hora certa. Vou experimentar mais!
Beijos, querida!!!
Lucy

casadabrima disse...

(kkkk, que cachorro é esse?)

Muito completa a tua análise, Dai. Há algum tempo eu pensava que problemas de expressão facial fossem reflexo de alguma inexperiência no palco, despreparo pára estar em cena, essas coisas. Mas depois de ver algumas bailarinas, com quase 20 anos de carreira, ainda terem uma expressão endurecida em cena, como se estivessem dançando sob pressão, acabei revendo essa minha ideia.

Eu penso que a expressão facial entrega descaradamente as 'nóias' da gente. Ainda que não diga quais sejam, dão uma pista. É um dos aspectos mais difíceis de ser lapidado.

bj, amore, esse café tá ótimo!

andancasdelory disse...

Então, flor! Expressão facial é uma das coisas mais difíceis de se ajeitar numa dança. Pq técnica, se treina, mas expressão facial treinada e coreografada, não rola.
Acho que ela vem de forma mais fluída em 3 ocasiões: ou quando vc não sabe muito dançar, não tá nem aí pra saber e quer mais é curtir a dança ou quando já tem uma maturidade com sua dança e a expressão fluí junto com ela ou quando a gente se emociona com a música - seja ela triste ou alegre.
Pra mim, a expressão sempre foi a parte menos difícil. Pra dizer a verdade, nunca me precoupei muito com ela. Sempre fluiu legal graças a formação que tive. Mas percebo que esse é o calcanhar de Aquiles de muitas bailarinas. Talvez a dica seja se encontrar primeiro: quem é você, o que quer da sua dança, o que te move a dançar... Talvez nessas perguntas estejam o passaporte para uma expressão que fale de você. Porque não tem nada mais feio que vê bailarina imitando expressão de outra...

LucianaArruda disse...

oi Daiane! obrigada pela dica no post... e que fôlego você hein, dançar até 16min, dois blocos, núss!
parabéns pela dança e sucesso pra você!
beijocas
^^