26 de jul de 2013

Dança do ventre e a cultura agregada à ela

A visão que se tem a respeito da dança do ventre sempre encontra pontos de divergência conforme as realidades culturais de cada local, mesmo dentro de um espaço ínfimo e muito comum. Quando se trata de estado para estado ou nação para nação então, nem se fala. Tenho observado por mim mesma e em várias situações o quanto e onde temos se equivocado no verdadeiro conceito da dança oriental no oriente, criando uma nostalgia que de fato não há (mais) ou talvez nunca houve. Assim como em décadas passadas fomos educadas e emocionalmente preparadas mais para o amor romântico do que para qualquer outra realidade mais negativa, projetamos isso na nossa expressividade. Isso é bom, mas nos leva a uma certa ilusão sobre a dança, que pode nos ocultar, inclusive, a maneira com a qual somos compreendidas através dela. Com o tempo e a insistência numa performance realmente artística e de qualidade técnica, estamos experimentando a capacidade de transformar essa imagem inicial em algo mais aceito e questionável, positivamente, aos olhos leigos.


Antes de qualquer coisa, precisamos entender a raiz de como esta dança pode ter surgido, e há sempre uma bilateralidade, uma que se refere à sexualidade sagrada dos primórdios e aquela do que fez buscar o pão de cada dia (se é que me entendem, rsrs). O fato é que não há como negligenciar nenhum dos meios onde a dança pode ter sido utilizada. Um  nos leva à uma categoria mais democrática, ritualista e bem vista, o outro nos leva aquilo que gostaríamos de omitir, mas que está ligado aos nossos medos e instintos mundanos.


Não é mais surpresa que no oriente a dança do ventre local é muito mal vista. Ela foi e ainda é muito usada como marketing sexual.  No Egito, poucas influências locais a seguram ainda como arte. O cerco está se fechando cada vez mais e há pouquíssimos espaços para uma dança mais genuína. As estrangeiras ainda conseguem ter maior respeitabilidade, em função do turismo e de toda geração de renda que envolve a dança. As famílias não aprovam a dança como profissão e as bailarinas locais tem sido "cassadas".
Apesar disso, várias culturas ocidentais acolheram a prática da dança de forma natural e artística, tornando-a reconhecida em qualquer parte do globo. Com o passar do tempo, a dança compila suas características regionais com as influências culturais onde é estudada.
Aqui no Brasil acredito que temos tudo muito universal e bem aceito, somos realmente democráticas por termos conhecimento de outras formas de pensamento e conseguirmos lidar com isso, a nossa cultura acerca dos relacionamentos impede a maioria de pender para o lado que alia a prostituição à dança do ventre.
Obviamente com isso temos um status que vem crescendo e ultrapassando esses conceitos "primários" despertados pela visão da bailarina. Por isso, mesmo com a dança do ventre perdendo pontos na sua origem, criamos a capacidade de transmutar uma sombra e seguimos despertando o encanto, assim como outros países ocidentais. Ou seja: tá valendo a pena, sim!
Acredito que a grande maioria, no Brasil, idealiza uma dança do ventre do estilo egípcio. Isso faz com que tenhamos uma certa simpatia dos egípcios à nossa prática, mas acho que ainda não temos uma verdadeira identidade.
Agora temos várias questões:
Possuímos um potencial imenso para crescer nesta arte e ainda estamos longe do ideal. Mas o que seria ideal?
O ideal é sermos o mais parecidos possíveis com os egípcios ou criarmos uma identidade brasileira, baseada na cultura de uma dança egípcia (que se amplificou mundialmente)?
Como a dança do ventre não é um patrimônio nosso, devemos ser realmente uma cópia fidelizada das egípcias? Há necessidade de mantermos um bom senso, de nos esforçarmos para manter essa identidade original? E se um dia tivermos uma identidade forte, como os argentinos, russos, libaneses?
Qual a importância? O que diz a sua ética sobre este assunto?
Há muito discurso nesse sentido. Há alguns anos atrás, os estilos mais polêmicos eram o libanês e o turco, super voluptuosos. Acompanhei alguns desabafos via rede social com críticas acerca do estilo argentino, por exemplo. O que há de errado com eles? Analisando os casos, eu acredito que o estilo argentino é diferente, é forte, é bem ocidentalizado. Uma leitura diferenciada daqueles que se propõe a se aproximar ao máximo do estilo egípcio, pois já carregam uma identidade expressiva que na minha opinião, os favorece. Talvez os egípcios não se agradem tanto, mas ao mesmo tempo, por que eles deveriam julgar, se estão dizimando esta parte da própria cultura? Não seria de fato enriquecedor ver uma arte, mesmo que tradicional, ser acolhida, mesmo que transformada, sendo reverenciada como deveria, mesmo que por outro país? Creio que é apenas uma questão de gosto. Tomemos por exemplo o samba, caso a sua dança fosse reprimida por aqui, mas estudado imensamente nos EUA e chamado de samba americano,o que você sentiria? Eu ficaria feliz, mas essa é minha opinião, que vem gerada em cima de toda minha educação ocidental. Pode ser que alguém mais ortodoxo se sentisse sinceramente ofendido por algumas modificações, mas realmente acho que não seria válido. 
Isso não quer dizer que esteja tomando partido, é apenas uma análise, aquela coisa de fazer pensar com carinho no assunto. Eu vejo a tristeza do fanatismo ideológico e religioso sendo amplamente aceito no oriente e suprimindo essa coisa boa de ser mulher, de ter um diferencial, de ter uma individualidade. Por que a liberdade de se vestir, de se maquiar e de dançar tem a ver com isso. Não seria toda essa liberdade que temos aqui, recebida como uma afronta? 
Particularmente alguns estilos de dança do ventre não me agradam, mas não me sinto confortável em descartá-los só por isso, afinal dentro destes estilos que eu não gosto, sobrevivem grandes artistas, que assim reconheço sempre temos algo a aprender com eles.
Também acho que não há necessidade de copiarmos um estilo de outro local, sendo que já estamos rumando a um estilo de dança mais brasileiro, que seria uma miscelânea americana/egípcia/argentina. Ainda em construção, buscando uma identidade que o tempo revelará em breve.
Gosto muito da dança do ventre da Rússia e tenho algo que considero importante a dizer sobre ela. Em termos de qualidade técnica elas estão muito à frente. Como toda expressão, que é pessoal e territorial (pois eles possuem um incentivo à cultura e ao esporte muito maiores e sobreviveram épocas de imensa dificuldade) chego onde quero: este é um dos motivos que os estimularam à competitividade. 
Basta abrir o You tube e procurar. Você vai ver a dança de lá sempre concorrendo em tudo que é competição, é palco, é ginásio, sempre tem um númerozinho balançando. Aí vem minha outra questão: isso é ruim? Afinal por que temos tanto preconceito com a competitividade? Este é um assunto que pra nós, parece até feio falar, criamos um preconceito nisso. Mas tudo tem sua utilidade.
Bom. No caso da dança, a competição sendo exacerbada, nos faz perder a noção da verdadeira importância das coisas e desestimula quem ainda precisa de estrada. Mas a falta dela também, pois ficamos sem ter um estímulo proporcional ao tempo útil e à consolidação técnica que precisamos colocar em prática. Perdemos um pouco do instinto, da impulsividade.
Quanto tempo faz que você, bailarina, não participa de uma competição só na sua categoria? Talvez eu esteja meio siri, andando de lado, ou tartaruga no casco, só na minha, mas tô achando que falta um pouco de competitividade pra nós. Parece que temos medo dos rótulos. No fundo, isso não seria uma baita falta de humildade nossa? Eu sugiro que ultrapassemos mais este tabu, para que possamos nos concentrar no que realmente importa: a participação, que visa a melhoria da qualidade da nossa dança.
E aí, o que você acha, bailarina?

7 comentários:

Vivi do Balaio disse...

Dai, no meu entender, não há como ser uma purista na dança egípcia sendo brasileira. Por quê? Pelo fato óbvio de não sermos egípcias. E a DV anda de mãos dadas com a leitura da vida cotidiana egípcia.E nós? Bem... Antes de nos tornarmos bailarinas, temos um histórico que, dentre uma série de coisas, internalizou uma cultura: a nossa, ocidental, sul americana e brasileira. Isto imprimiu em nossos corpos expressões, tônus que são um eco dessa cultura na qual fomos criados. Mas isso não se percebe, é algo tão interno e subjetivo que só estando fora - melhor, tendo um olhar de fora - é possível se observar... Por isso os egípcios identificam tão bem qualquer bailarina estrangeira , por melhor que esta seja.
E aqui também vem outra reflexão... De qual dança pura falamos? A egípcia? Porque a DV tem origens múltiplas, e sabemos disso (embora o peso maior dessa origem seja dado ao Egito). Se formos falar em fazer uma dança que seja egípcia, ok. Se formos falar de DV temos que lembrar de outras origens que se dependuram em sua história.
Eu cá penso que a DV ganha elementos de acordo com o lugar onde se estabelece. Não acho isso ruim, desde que se preserve a principal natureza da dança. E também não acho ruim porque isso cria pluralidade de expressões, amplitude de repertório...
Me fiz entender? ;-)
bjks!
Vivi

Daiane Ribeiro disse...

Sim, Vivi! Neste post estou falando de modo geral, mas atribuindo a origem à dança egípcia pura, sim...pois os principais e mais antigos registros vem de lá, pelo menos que eu tenha tido informação até hoje. O fato é que existe uma crítica relacionada à dança que não segue a (escola) egípcia e acho isso negativo, o reconhecimento aos gostos ou trabalhos alheios àquilo em que se acredita ou se segue não necessariamente precisa ser desencorajado. Tu sabe que minha escola é egípcia, mas adoro outras interpretações sendo bem executadas e inspiradoras.

Adriana Mukam disse...

Me corrija se eu estiver equivocada, mas mesmo a DV que vemos hoje no Egito já está um pouco transformada pela cultura árabe, não é puramente egípcia, desde que os mesmos dominaram o país, então o máximo que podemos desejar é ter uma dança que seja fiel tecnicamente ao que existe hoje, mesmo que com bem poucas representantes. E mesmo tecnicamente é beeeem difícil, você sabe, dá trabalho mesmo, precisa dedicação. E para ter uma identidade brasileira é preciso ousar inserir a personalidade de mulher brasileira que não precisa andar com o rosto coberto, mas que tem outras questões a serem resolvidas, como a desvalorização do próprio corpo. Já ouvi o debate sobre a dança "pura" ou "não pura", e concluí que serve tão somente para excluir pessoas. Para dizer que umas são boas e outras não tão boas, mesmo tendo excelente nível técnico, presença e coração. E eu acho isto triste pq ao mesmo tempo que a competição é hipocritamente condenada, ela acontece de um modo mais velado. Adoro os teus textos! Bjos

andancasdelory disse...

Flor, eu vejo um estilo brasileiro, sim. Ainda que seja empurrado meio garganta à dentro. Qndo a gente vê as meninas da Khan, por exemplo, a gente vê uma estrutura ali, um modos operandi que se ampliou e fez escola no país. E vejo meninas do Brasil inteiro querendo dançar como a Kahina ou a Ju Marconato. Se a gente vai olhar a dança delas, percebe que há uma fonte do tal estilo egípcio - mas tem uma leitura muito ocidental e muito própria ali também.
Mas essa éuma discussão complexa. Pensa: de que estilo egípcio essas meninas da Khan bebem? Do moderno ou do tradicional? Pq eu vejo muito mais influência da leitura da Randa Kamel e da Raqia Hassan que das dançarinas mais antigas, como Souher Zaki, por exemplo.
E essa leitura moderna ainda pode ser considerada como um estilo "puro"? E algum dia foi? Eu não creio muito nisso... talvez no folclore a gente encontre mais dessa raíz, mas na dança do ventre de cabaré (como os americanos gostam de chamar), não saberia situar nenhuma referência tão purista assim...
Quanto a questão da competitividade, creio que a tenhamos e talvez até num grau maior que das russas. O problema é que aqui essa competetividade é velada. Se faz por mimimi, fofoca, disse-me-disse. Ela só aparece nas entrelinhas. Não temos maturidade para competitividade estruturada - ainda estamos no estágio anterior: no que não admite que ela existe.
É isso. Amei o post. Beijos.

Daiane Ribeiro disse...

Nossa, meninas! Parece combinação, viu? Adorei os coments de vocês! Realmente vejo isso na competição também, acho que falta um amadurecimento, parece que um dia alguém falou: "não precisamos disso" e talvez por um tempo eu até tenha concordado, mas as russas são um exemplo de competitividade estruturada e necessária. Sinto falta dessa adrenalina...e quanto à dança do ventre pura, tenho que concordar que ela é um tanto utópica, não? Mas já ouvi falar que as brasileiras são as que mais se aproximam e se aprimoram no estilo egípcio. Seria um elogio? acho que sim...no momento em que se compreende o que isso quer dizer. Beijos!!!!

Hanna Aisha disse...

"O ideal é sermos o mais parecidos possíveis com os egípcios ou criarmos uma identidade brasileira, baseada na cultura de uma dança egípcia (que se amplificou mundialmente)?"
Boa pergunta, Daiane, nunca havia pensado nisso. Acho que devemos criar uma identidade pois nosso maior público está aqui. De quê adianta apresentar algo tão genuíno se o público não se identifica?

"Como a dança do ventre não é um patrimônio nosso, devemos ser realmente uma cópia fidelizada das egípcias? Há necessidade de mantermos um bom senso, de nos esforçarmos para manter essa identidade original?" Acho que deve haver sim, a necessidade de entendimento sempre da cultura egípcia, pois é dela que nos inspiramos mais. E para passar uma trabalho sólido, tanto em aula quanto no palco, o conhecimento bem estruturado nos dá segurança e liberdade de modificarmos o que nos interessa. Concordo com as coisas que a Vi escreveu. Boa discussão!

Hanna Aisha disse...

"O ideal é sermos o mais parecidos possíveis com os egípcios ou criarmos uma identidade brasileira, baseada na cultura de uma dança egípcia (que se amplificou mundialmente)?"
Boa pergunta, Daiane, nunca havia pensado nisso. Acho que devemos criar uma identidade pois nosso maior público está aqui. De quê adianta apresentar algo tão genuíno se o público não se identifica?

"Como a dança do ventre não é um patrimônio nosso, devemos ser realmente uma cópia fidelizada das egípcias? Há necessidade de mantermos um bom senso, de nos esforçarmos para manter essa identidade original?" Acho que deve haver sim, a necessidade de entendimento sempre da cultura egípcia, pois é dela que nos inspiramos mais. E para passar uma trabalho sólido, tanto em aula quanto no palco, o conhecimento bem estruturado nos dá segurança e liberdade de modificarmos o que nos interessa. Concordo com as coisas que a Vi escreveu. Boa discussão!