13 de abr de 2014

Tarab e Raqs el Sharq

Hoje quero deixar aqui um resumo sobre uma das maiores pesquisas que realizei sobre Tarab e Dança do ventre. Procurei em várias fontes que possuem grande credibilidade, como Gilded Serpent e Shira, mais algumas leituras sobre psicologia que me esclareceram mais cientificamente, como no livro Inteligência Emocional (Daniel Goleman) no qual há um capítulo interessantíssimo em que descreve o fenômeno "flow", ou "entrar em fluxo", termo que já pude vivenciar seu significado através do estudo e prática da dança do ventre. Também não posso deixar de citar o maravilhoso músico Sami Bordokan, com quem tive a oportunidade de aprender fundamentos importantes da musica árabe.



Primeiramente, o que é tarab?

Não é necessariamente um estilo musical, como estamos acostumadas a ouvir. Ele tem sido atribuído á música árabe orquestrada pela complexidade de sua composição e capacidade de criar interação e êxtase entre os músicos e a platéia.
Mas o real conceito conhecido como "Tarab" é a sensação de chegar a uma consciência mais elevada durante a execução da música. Se a bailarina estiver acompanhada com uma banda, inclui esse sentimento de total unidade com os outros músicos,  crescendo juntos na sintonia e no ritmo, interagindo à maneira que se cria um vínculo de percepção mútuo com o momento presente e o que está acontecendo. (Lembram do que falei pra vocês no curso do baladi, quando a bailarina e o músico podem evoluir na composição harmonicamente, um interagindo e respeitando o momento do outro?).
É uma experiência transcendental e compartilhada através da música, que é o objetivo final, tanto para um músico tocando taqasim ou um vocalista cantando uma maawal. Não há nada parecido com isso na música ocidental.

O termo é geralmente associado a um instrumentista realizando um solo taqsim, que é improvisado no momento. Aliás tem tudo a ver com improviso, e ao mesmo tempo, não. Na minha opinião, o "não" é por que a pessoa, seja qualquer o trabalho que ela esteja realizando naquele determinado momento, para ela estar presente de forma a se entregar em tarab, precisa uma concentração de nível absurdo e uma coordenação tão natural e automática sobre aquilo que ela sabe fazer, que não é apenas um improviso, sem um condicionamento. Ela precisa ter o dominio completo das suas ações para poder soltar as rédeas. Uma maravilhosa contradição.

"Tarab" é uma sensação que pode ser experimentada com qualquer esforço criativo e artístico. É uma vivência de êxtase. Há uma qualidade de transe nele, uma qualidade que alguns descrevem como espiritual. É a criatividade absoluta, como se todos os sentidos do corpo se centrassem em torno deste momento artístico.
Às vezes, apenas de ouvir uma música que amamos já podemos sentir. Comparemos também a algo relacionado à sensação de euforia de quando sentimos uma forte paixão.

Na dança tribal e nas coreografias também temos como identificar este momento. Á medida que há uma integração e uma interação que vem do conhecimento mútuo de movimentos, estes, precisamente absorvidos na memória muscular, o tarab pode acontecer pela alegria propiciada com a harmonia do grupo e a sincronicidade dos movimentos.

No ocidente, eu atribuo o Tarab à terminologia "fluxo" + "rapport", presentes na psicologia, que representam o estado de absorção absoluta ao mesmo tempo em que se consegue criar vínculos sensoriais com outros indivíduos/ambiente, para que haja alcance e imersão de todos os presentes no mesmo "estado de espírito". Na verdade somente o fluxo já é independente de qualquer platéia ou indivíduo, o vínculo neste caso é o próprio ser com ele mesmo. O fluxo pode ser alcançado através das práticas religiosas, como o giro sufi, na execução de uma Tannoura, num show de uma grande orquestra

Mihaly Csikszentmihalyi, quem primeiro descreveu este conceito, sugere que esse estado de ser capaz de alcançar foco total, se aplica a quase todo campo de atividade. De acordo com Csikszentmihalyi, o estado de fluxo é  “estar completamente envolvido em uma atividade pelo seu próprio bem-estar”. O ego vai embora. O tempo some. Todo o seu ser está envolvido, e você está usando sua habilidade no nível máximo”. 

Uma bailarina pode alcançar esta experiência, se realizada corretamente para capturar e refletir os aspectos especiais do taqasim, levando-a ao Tarab - a alma da música árabe quando capta o contexto cultural e sentimento.
Para isso é importante criar as condições necessárias para o reconhecimento da música, seus humores (maqam) e suas evoluções; é necessário, antes de tudo, saber ouvir e também compreender o quanto deve-se adequar para ter domínio do movimento.

No curso que estou projetando falarei sobre algumas teorias musicais importantes, um pouco mais complexas e detalhadas para postar aqui, mas que estarão presentes no material teórico. Não imaginamos o quanto falta aprendermos sobre dança, a menos quando nos deparamos sobre o que precisamos aprender da música, para poder dançar. E a música é realmente a alma do negócio nesta cultura.

Umas perguntas pra você pensar:
Como entrar neste estado de êxtase?
Você já ouviu falar desse conceito antes? Você acha que já experimentou tarab em dança do ventre?  Você aprendeu a identificá-lo e dar passagem à ele?  Conte-nos sua experiência, em que estilo de dança foi? Você já o sentiu através de outra atividade artística?

Participe e compartilhe sua opinião, ela é muito importante para que eu possa traçar uma linha didática que favoreça o esclarecimento deste assunto! O tarab é aquilo que nós todas queremos alcançar como bailarinas...









Um comentário:

Anônimo disse...

Se eu tiver que explicar o que é para mim a dança do ventre na minha vida, eu falaria que ela causa em mim o Tarab, nao porque seja uma excelente bailarina, nao, minnha dança continua sendo muito amateur, mas a dança árabe me leva um estado de silencio mental, a parte lógica desaparece. Eu sinto como o corpo e o espíritu estiverem unidas para se expresar o simplesmente para sentir. Isto eu nunca senti em um palco, mas sim na minha casa, dançando no meu quarto e com isto já é suficiente para mim. Simplesmente há silencio e magia nesse momento de dança, que nenhuma outra música nem dança conseguiram em mim, essa increível conexao. Daniela Guzmán (Costa Rica)