9 de fev de 2010

Não estamos sós


Este texto a seguir foi retirado de um blog que estou seguindo, Impulsões Criativas.Trata-se de um desabafo que muito me sensibilizou e por me identificar tanto com essa questão, reproduzo aqui. Não fala sobre a dança do ventre, mas dá pra sentir que o problema em questão é bem mais amplo e não se limita ao nosso mundinho!

UM PENSAMENTO QUE SE REVERBERA!


Sobre Conexões 

"Foi com muito prazer que participei da curadoria seletiva da 6ª Bienal SESC de Dança, pois vivendo e trabalhando há vinte anos fora do meu país, tive a chance, durante esses três dias intensos de seleção, de poder ver, analisar e entender bem de perto a atual produção da dança nacional.
Constatei, porém, com certo pesar, que o número de produções tende a ultrapassar o número de criações. Encontrei muitas propostas vazias de conteúdo. Percebi as buscas, as tentativas, sobretudo as pesquisas e poucos achados. E perguntei-me: o que será que fundamenta a expressão da dança hoje em dia?
Descobri que esta não é só uma questão pessoal e sim de muita gente. Sobretudo do Sesc que, nesta iniciativa de apresentar uma Bienal sobre Conexões, busca encontrar respostas instigando seus participantes a investigar e explorar a arte da dança em relação ao espaço físico e ao espaço das relações humanas.
Mas será que podemos chamar de arte as buscas, pesquisas e tratados que fazem parte de todo processo de criação? Há tempos atrás uma grande atriz me disse: “ache, depois procure!” É nisso que acredito: primeiro criar e depois cuidar, lapidar, aperfeiçoar, analisar! Acredito também no famoso lema: menos é mais! Lema esse, a meu ver, necessário em todos os setores da vida contemporânea! Hoje tudo é muito: muito barulho, muita dívida, muito cansaço, muito stress, muita informação. Hoje temos muito pouco do silêncio, do pé de meia, da tranquilidade, da qualidade, da profundidade.
Na verdade desejei que esta Bienal se apresentasse cheia de espaços em branco. Espaços estes que teriam a função de estarem disponíveis para uma conexão com o vazio e com o pouco. Esses vácuos estariam assim, quem sabe, despertando curiosidade no público e nos artistas e, consequentemente, provocando uma maior reflexão sobre o tempo que vivemos e sobre a dança que fazemos. Sei que corro o risco de ser julgada pretensiosa, antidemocrática e elitista pensando assim, mas não seria mais instigante?
Chego a pensar que um dos fatores regentes desta grande proliferação de projetos seja a política de fomentos. Na década de 80 a possibilidade de se conseguir um patrocínio para um trabalho era um sonho ridiculamente quixotesco. Hoje este sonho se torna realidade: a dança está sendo agraciada por um número grande de subvenções e incentivos. No entanto, são poucos os trabalhos que realmente provocam “aquele não sei o quê” que mexe com a gente, que nos alerta sobre algo, que nos inspira a fazer algo, que faz com que a gente não tenha vontade de ir embora do teatro após o espetáculo!
Que me perdoem os artistas participantes e a própria direção do Sesc por esta minha crua e antidiplomática franqueza! Ela provém do grande respeito e amor que sinto pelo exercício desta profissão tão árdua e tão querida. Por isso, mesmo estando um tanto desiludida, junto-me à proposta do Sesc de apresentar para o nosso público um panorama bem abrangente da dança que se faz hoje no país. Talvez após a vivência destas conexões, descobrir-se-á o que realmente nos conecta com esse “algo mais” que todos nós buscamos. Sou solidária também aos meus colegas desta curadoria, na certeza de que nossos escolhidos buscarão, com toda a verdade a que se propõem, conectar suas pesquisas aos espaços escolhidos na sede do Sesc Santos e nos cantos pitorescos desta importante cidade da cultura paulistana."




Sônia Mota – setembro de 2009

Sônia Mota nasceu em 1948, São Paulo/ Brasil. Nas décadas de 70 e 80, exerceu um papel decisivo na dança contemporânea brasileira como bailarina, professora e coreógrafa. Mudou-se em 1989 para Colônia na Alemanha e até 2004, trabalhou exclusivamente como professora de dança para diversas escolas e companias profissionais da Europa. Em 2005 Sônia retornou ao palco com o solo VI-VIDAS , 1a parte da sua trilogia sobre o feminino na sociedade contemporânea. O duo QuaaDriDuuo, 2a parte da trilogia, entra em cartaz em 2007. Nesta produção Sonia questiona a relação do casal na esfera privada social. Em 2009, Sônia completará sua trilogia com TRISTEZA & JOSEFINE uma poesia dançante sobre as relações entre mães e filhas. Vi-vidas foi nomeado em 2005, como um dos cinco melhores espetáculos de dança da cidade de Colônia.

Fonte: http://www.mostrasescdeartes.com.br/bienaldanca2009/?p=340

Um comentário:

Vivi disse...

Fantástica reflexão. Estou aqui, pensando sobre essas palavras.

Mais um ponto pra ti, guria! Beijo carinhoso.

Vivi