27 de dez de 2012

Estar em evidência: uma problemática desapercebida

Uma reclamação que sempre ouço nos bastidores das aulas de dança está relacionada ao estar em evidência, principalmente as professoras em relação às suas alunas.
Gostaria de oportunizar um momento de reflexão a todas que se interessam por este assunto e colaborar para  divulgar a necessidade de perceber melhor o que rola em algumas ocasiões.

prepare-se para mais reflexões...
Primeiramente, quero ressaltar que eu mesma tenho aspectos negativos bastante conscientes, que luto para superar e não gostaria que este assunto soasse como algo que usaria pra me engrandecer sobre os outros ou para compensar minhas falhas, apenas gostaria levantar essa questão para que nossa percepção se fortaleça, contribuindo para a maior qualidade da nossa dança e sua didática de forma geral, já que é uma constante queixa entre as alunas.

Então, lá vou eu de novo, abrir minha boca.
Trata-se de a professora estar em evidência de tal forma, que suas alunas se sentem conscientemente subalternas, provocadas na sua estima e se revelando um mal estar em maiores proporções. Trata-se também de qualquer integrante, que busque evidenciar-se perante seu grupo, mas de uma forma que as outras se sintam alienadas com esse comportamento (diferentemente da pessoa que evita aspectos da própria performance, por receio de parecer exibida; esta realmente precisa se envaidecer mais).
No caso da professora, vamos nos colocar na situação de que ela está sempre muitos passos à nossa frente e costuma ser, naturalmente, nosso modelo feminino na dança. A pergunta é: por que sua performance fora do solo, enquanto integrante no grupo e coreografia, precisa ser tão chamativa e diferenciada, ressaltando a obviedade da sua capacidade física, cênica, quando isso pode ser notado da mesma forma, sutilmente?

Para uma aluna que está construindo ou trabalhando seu bom senso e auto estima, ainda é justificado qualquer desequilíbrio, não significando que o mesmo esteja intrínseco na sua personalidade. Mas falando da situação em si, a ultra-evidência faz com que os humores se alterem e destoem imensamente quando em grupo.

Acredito que como bailarinas, temos até mesmo o dever profissional, de brilhar perante os holofotes, mostrar ao máximo a encantabilidade da nossa arte, tendo no nosso solo a "ferramenta" que responsavelmente viabilizamos  à essa contemplação. E por isso coloco tanta lenha na fogueira da expressão, para que isso tudo possa de fato aparecer. O que é bonito deve ser visto, também individualmente.

um lindo solo é tudo de bom!
Acontece que em grupo, as coisas mudam um pouco. Aprendi isso através da dança tribal: você precisa deixar a de lado sua lantejoula particular e sentir que o brilho que há nela deve ser compartilhado e universalizado com o grupo, para que a coreografia se torne "uníssona".
A verdade é que nenhuma das partes deve brilhar mais que a outra de maneira proposital. É necessário uma certa doação ou desapego nesse sentido: saber que você faz um passo muito bem, não significa que tem que ser feito do seu jeito. Não precisa ser feito do jeito errado, obviamente, mas com uma intensidade diferente.
Se o grupo ainda age de uma forma muito sutil com seus movimentos, a menos que ele se adapte fielmente à proposta contrária, vale a pena captar essa energia mais comedida para tentar, aos poucos, equilibrar a intenção, devagar, todas juntas, como um organismo se desenvolve progressivamente. Mais do que isso é forçar a barra, e isso aparece demais. A professora ou a integrante que acabam por não se render a esta idéia, colocam tudo a perder, mesmo com o melhor movimento ou a melhor expressão. Não é legal fazer a galera "sumir" de cena, em função do seu brilho imenso.

Narcisa na hora certa, frô!

Então não há nenhuma boa forma de se evidenciar? Sim, tem os momentos! Fundamentalmente, ao realizar algo mais difícil que esteja no contexto coreográfico, mais em caso de necessidade, mesmo.
Acho muito bonito e interessante as coreografias onde as profes estão bem camufladinhas, nem sempre na frente ou no centro, mas interagindo igual e com o mesmo papel das demais, com equilíbrio na intenção e na qualidade dos movimentos.

"Somos pétalas de uma única flor"
Agora, mudando um pouco a linha, mas que tem a ver também, tenho mais duas propostas de melhoria que acho que vale a pena colocar: esse lance de "o melhor vem no final", nos shows de dança do ventre, tem me incomodado bastante. É como se o aquilo vem primeiro servisse de degrau para Sua Majestade, que entra em cena e "quebra tudo", como se o anterior fosse dispensável. Essas hierarquias de shows precisam mudar urgentemente! A temática é mais importante, e não impede a presença antecipada da "bailarina principal" em meio ao corpo de baile. Uma questão de ética. Aliás, corpo de baile é uma expressão que deve ser mais usada e respeitada entre nós. Vamos acabar com essa coisa de tratar aluna como "súdita"! Se você já foi tratada assim, sabe a merda que é. Não perpetue este comportamento.




E em segundo lugar, não menos importante, o lance da divulgação. Vamos ter mais atenção nisso, pessoal. Tudo bem não querer pagar um profissional qualificado (eu seria suspeita em dizer que sim, pois sou designer tb) mas existem critérios que precisamos respeitar com carinho, no que diz respeito à sua imagem e a dos outros.
Bom senso. Menos é mais.
Para as profes: ou sai sozinha no cartaz ou sai com o seu grupo e suas convidadas no mesmo tamanho, em fotos não apelativas e com alta resolução. Quando digo não apelativa, quero dizer que você não será confundida com propaganda de lingerie ou de massagem for men.  Deu pra entender, né, baby? Pega leve no peitão, naquele pernão rua afora, aquela pose com cara de perigosa...hehehe!!!!

Neste momento, analise friamente e em terceira pessoa, com uma vaidade moderada. A foto tem que ser bonita, pode ser um pouco sexy e tal, mas pense naquelas pessoas que nunca te viram, não conhecem bem a dança  e vão ver você no cartaz: a primeira impressão é altamente comprometedora e pode acabar com a imagem de um show inteiro.
E pra  finalizar: boas fontes (letras), boas cores, sem informação demais ou fotos demais. Aliás, quer saber, fia? Manda fazer mesmo. Escolhe um profissional, avalia o portfolio, dá as coordenadas e paga. O mesmo vale para edição de músicas: dificilmente vai se arrepender.

Bom, depois destas dicas eu espero que a quantidade de reclamações se atenue!!! Quero ver alunas felizes, não só as minhas, mas as suas também, pois juntas, nós somos a Dança!!!!
Beijossss!




3 comentários:

Priscila Leppich disse...

Nossa Daiane!! Muito bom o texto!! Adorei!! Penso assim também!! Parabéns!! Beijosss

Adriana disse...

Só fiz um workshop contigo, mas já bastou para me passar uma impressão sua, que hoje, lendo este texto, só se confirma! Quem dera todas as professoras tivessem essa consciência... Já passei por situações... E como me recuso a ficar jogando confetinho paguei pela minha boca que tem vida própria e um pacto com a verdade, hehehehe! Que bom que vc voltou com as aulas!!

Fe disse...

Adorei Dai! Penso o mesmo em tudo o que tu escrevestes! Tem tanta gente que deveria ler isso...nossa!